O Islã e o mundo

09/02/2011

Obra da série “Cultura e Religião”, da Editora Santuário, desmistifica cultura do mundo islâmico

Paulo Gabriel: “As pessoas tendem a simplificar os conflitos no mundo muçulmano e associar à ideia que o Islã seria uma religião violenta e política”

Por Deniele Simões

 

“Islã: Religião e Civilização. Uma abordagem antropológica”. Esse é o título de um dos lançamentos mais comentados da Editora Santuário, dentro da série “Cultura e Religião”. O livro foi idealizado pelo professor Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, Ph.D em Antropologia pela Universidade de Boston (EUA), como forma de apresentar a cultura islâmica ao meio acadêmico e ao público em geral.

Em entrevista ao Jornal Santuário de Aparecida, Paulo Gabriel falou sobre o crescimento do islamismo no mundo, o desenvolvimento dessa religião no Brasil e a falsa ideia de que todo muçulmano é “terrorista”.

Na visão do autor, antes de qualquer estigmatização ao Islã, é preciso que o mundo compreenda as diferenças entre cada seita, como alternativa à prática da intolerância religiosa.

Jornal Santuário – Como surgiu a ideia de lançar a obra?

Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto – Eu estudo o Islã desde 1999 e fiz um doutorado nos Estados Unidos. Quando eu voltei para o Brasil e comecei a ensinar na Universidade Federal Fluminense, no Departamento de Antropologia, percebi que havia uma ausência de obras acadêmicas, que tivessem uma pesquisa por trás e apresentassem uma introdução ao Islã. Ao mesmo tempo, já nessa época, havia um crescente interesse das pessoas pela temática. O tempo todo, pela televisão, nos jornais, apareciam questões ligadas ao mundo muçulmano. Você tinha nitidamente um crescimento e um interesse sobre esse tema e, do ponto de vista da pesquisa acadêmica, você tinha uma falta de textos em português que permitissem uma abordagem mais geral sobre o Islã. Então, eu pensei um texto que servisse tanto para o mundo acadêmico quanto para o público em geral, ou seja, para as pessoas que têm interesse em conhecer o mundo muçulmano, as questões que envolvem as sociedades muçulmanas e as pessoas que praticam a religião islâmica. Aí, eu sempre tive vontade de escrever esse texto e surgiu uma oportunidade e fui convidado para participar da série Religião e Cultura da Editora Santuário para publicar um texto introdutório sobre o Islã. Foi daí que surgiu o livro.

JS – É verdade que o islamismo é a religião que mais tem crescido no mundo?

Paulo Gabriel – Sim. O Islã é uma religião que tem crescido bastante nas últimas décadas, mas ela não está sozinha. Há um fenômeno mais geral, que é uma crescente afirmação das identidades religiosas e uma crescente procura da religião como forma de se inserir na sociedade, de afirmar uma identidade e se posicionar no mundo. Então, o Islã faz parte desse fenômeno, crescendo bastante em alguns territórios, principalmente na África, no sul da Ásia e cada vez mais nas Américas.

JS – O Oriente Médio é o berço do islamismo. E no Brasil, como essa religião se desenvolve?

Paulo Gabriel – O Islã no Brasil tem duas histórias paralelas que não se cruzaram. Uma é a história colonial, com pessoas de origem muçulmana que se converteram ao catolicismo com a reconquista da Península Ibérica e praticavam rituais do Islã como tradição familiar, vieram com a colonização portuguesa ao Brasil e eram grupos isolados, que não chegaram a ser comunidades.

A partir do século XVIII há a presença cada vez maior de escravos muçulmanos dentro da África, principalmente em regiões como a Bahia e, no século XIX, irão liderar uma série de revoltas contra seus senhores, sendo a mais famosa delas a de 1835, a Revolta dos Malês.

Esse Islã de origem escrava existia em comunidades no Rio de Janeiro, Salvador e Recife, mas a partir do final do século XIX entra em declínio, seus membros se convertem ao catolicismo, às religiões afro-brasileiras e ele acaba definitivamente desaparecendo.

Justamente quando os muçulmanos de origem escrava e africana começam a desaparecer há a entrada de imigrantes do Oriente Médio, de fala e cultura árabe, vindos das regiões da Síria, do Líbano e da Palestina. Entre esses imigrantes, pelo menos 15% deles eram muçulmanos.

Então, o Islã contemporâneo no Brasil deriva das comunidades árabes que fundam instituições religiosas, criam mesquitas e que, a partir dos anos 80, se organizam cada vez mais e têm um crescimento maior com a conversão de brasileiros sem origem muçulmana e árabe ao Islã.

JS – Por que as pessoas têm tanto medo dos muçulmanos e costumam confundir os fiéis dessa religião com terroristas?

Paulo Gabriel – Isso deriva, em parte, de uma visão bastante parcial da mídia, quando esta relata o espaço político do Oriente Médio. Então a mídia tende a, de certa maneira, mostrar que os conflitos no Oriente Médio são irracionais, ligando isso à presença da religião muçulmana, esquecendo-se que, obviamente, essa violência deriva de processos políticos próprios de cada realidade dessas regiões.

E isso tudo vem a piorar com o 11 de setembro, onde se tem a associação entre a imagem do muçulmano com a do militante terrorista.

Então, as pessoas tendem a simplificar esses diversos conflitos que existem em várias regiões do mundo muçulmano e associar à ideia que o Islã seria uma religião intrinsecamente violenta e política, quando isso não é verdade.

Existem atos violentos praticados em nome da religião por católicos da Irlanda, hindus na Índia, budistas no Sri Lanka, judeus em Israel e esses atos não levam à mesma generalização que se faz quando um ato violento em nome da religião é praticado por um muçulmano.

Então, de certa maneira, o livro mostra que existem processos de mobilização política, de uso violento das identidades religiosas por parte dos muçulmanos, mas isso tem de ser entendido dentro de cada contexto local e de cada processo político que leva a essa configuração. E isso não pode ser generalizado para um bilhão de muçulmanos que existem no mundo.

JS – Para finalizar, peço que deixe uma mensagem aos nossos leitores sobre o perigo da intolerância religiosa.

Paulo Gabriel – Infelizmente, junto com a crescente visibilidade da religião como forma de inserção social, há também um crescimento em processos de intolerância religiosa, ou seja, a tentativa de excluir, de apagar e eliminar a presença da diferença em nome da religião ou de uma forma de controle sobre a religião, o que seria o secularismo e o laicismo.

Um dos exemplos mais clássicos é toda a campanha anti-islâmica que acontece na Europa, inclusive com leis que proíbem, discutem, de certa maneira, estigmatizam o uso e a expressão de formas de afirmação da identidade religiosa como o véu, na França. Mas, infelizmente, você também tem, da parte de grupos religiosos, toda uma tentativa de controle absoluto sobre os espaços públicos.

Então, acredito que a única saída para isso é a convivência, é exatamente tentar compreender as diferenças e espero que meu livro contribua nesse sentido, de as pessoas entenderem o que é o mundo muçulmano, como ele se produz historicamente, quais são as heranças culturais dele e, obviamente, desconstruir todas as representações estigmatizantes e simplificadoras nesse sentido.

"Islã: Religião e Civilização" pode ser adquirido pela central 0800 16 00 04


Noite de autógrafos

13/12/2010

Por Deniele Simões

O escritor Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, autor do livro “Islã: religião e civilização” participa, nesta sexta-feira (17/12), de uma noite de autógrafos para a promoção da obra, lançada pela Editora Santuário.

O encontro acontecerá na Livraria da Travessa do Centro Cultural Banco do Brasil, a partir das 19 horas.

Trata-se de uma excelente oportunidade para conhecer o autor e o livro, que recebeu crítica positiva do jornal Folha de S. Paulo.

“Islã: religião e civilização” apresenta o Islã do ponto de vista histórico, doutrinário e político, por meio de um olhar antropológico, refletindo sobre seus aspectos religiosos e civilizacionais.

Apesar da complexidade da tradição religiosa do Islã, a mídia continua de uma forma pejorativa e preconceituosa associando a religião islâmica ao terrorismo. Por isso mesmo, a obra deverá ajudar o leitor a quebrar paradigmas e preconceitos.


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